27 de setembro de 2012

A vó menina

E hoje completaria sua 93ª primavera, louvando seu Deus e cantarolando corinhos, cantigas e marchinhas dos idos de 40. Se fizessem-lhe um almoço, seu bolso voltaria carregado de carne envolta no guardanapo, já que preferia não mastigá-la na frente dos outros pois seus dentes já não eram tão fortes. Tomaria algumas taças de vinho e acusaria, exaltada, os vivaldinos que denegrissem a imagem do seu maior ídolo, Roberto Requião, ou de qualquer outro emedebista de guerra. Se recordaria das bicas de Castro e das lavadeiras na margem do rio Iapó; das primas carolas que faziam de tudo pra arranjar um par de calças; da cretina Áurea, que roubou-lhe Terêncio, um bajulador que gostava de fazer dedicatória no hinário das moças da Congregação; do estouro da boiada vindo em sua direção que fez-lhe empoleirar numa árvore, deixando cair seus livros de inglês ao chão. E voltaria a falar de política, desta vez sobre aquele aumento do ordenado tão preterido: pauta de discussões longas entre as aposentadas da família. Será eterna a lembrança dos seus cabelos brancos — que eram cinzentos e isso não se discute — do seu charme provinciano ao cruzar as pernas e fugir da norma culta quando ia dizer. Inenarrável permanecerá a sua história que, na memória, reside num altar opulento onde és majestade e não passas de uma espevitada menina.

Um comentário:

  1. Will, gostei bastante do seu relato. Ele ficou um tanto quanto caleidoscópico e as memórias nesse momento de nostalgia e saudade acredito que funcionam assim mesmo. É uma mistura de imagens, de reminiscências, de situações e pequenas coisas que definiam aquela pessoa. Talvez essa maneira de descrever seja uma "fotocópia" da imagem que guardamos da pessoa querida, com todas as suas pecualiaridades. Continue escrevendo!

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