28 de janeiro de 2011

Te amo porque me desprezas

Cara, não vou aqui ficar dando explicações que exijam o que chamam de “bom senso” e todo aquele discurso racional. Nunca me foi útil, não será agora que vou me apropriar de um comportamento que eu nunca tive Eu comecei desse jeito aquela conversa que até o dia de hoje foi a mais intensa e perturbadora que já tive. Eu não sabia como começar e só previa um fim: eu levantando daquela mesa, a aliança, que eu comprara, ficaria intacta aonde a tivesse deixado, ele olharia pro teto procurando saber se aquilo era um sonho ou algo assim, e o ônibus ainda passaria diante de mim, sem me resgatar daquela paura. Sem saber o que restava daquele sonho, eu disse — Cara, eu sei que posso estar sendo muito infantil, mas eu preciso discutir algumas coisas com você, eu preciso enterrar o cadáver que estou carregando, eu preciso. Se lembra do nosso papo de amor, aquela palavra que a gente estava em busca de um significado, essa coisa que a gente acha que carrega no peito enquanto carrega uma aliança no dedo, essa porra que vira tema-central de novela, filme, manchete policial, etc ? Eu tô aqui pra isso, por isso — Naquele instante, o garçom nos interrompeu, a voz grave do moço perguntava se queríamos tomar ou comer alguma coisa, ele pediu um cappuccino e eu pedi um chá de morango. Voltando, eu disse — Eu não sei como começar a explicar essa coisa. Mas tá, vou me esforçar pra ser clara, direta e sóbria. Cara, eu te amo, mas é um amor doentio. Não que eu seja louca por você, longe disso. É loucura porque só te amo porque espero que algum dia você chegue aos pés do meu ouvido sussurrando que me ama, que seus melhores momentos são e foram ao meu lado, que vai me fazer uma surpresa e essas coisas de bobo alegre. Não, você nunca fez surpresa alguma pra mim! Sair mais cedo do trabalho por estar com dor de cabeça e me encontrar pra tapar o buraco da sua tarde é muito fácil. A gente tinha sonhos, se lembra ? As mãos dadas em Paris, piquenique no Central Park, tango em Buenos Aires, retiro zen na Índia, trilhas na Indonésia, passar dias sem sair da cama e todas essas coisas idiotas que os casais fazem pra camuflar suas vidas, afinal, o amor é um instrumento pra fazer as pessoas sonharem um pouco, saírem do seu mundinho estático. Mas sabe, acho que esses são apenas nada mais do que os meus sonhos, e você sempre fazia o favor de concordar comigo e, desconfiado, apoiava minhas sugestões ousadas e muitas vezes insenstas — Então, ele me olhou e me perguntou se era só aquilo que eu queria dizer, eu fiz que sim com a cabeça — Vou contigo até perto da sua casa, é tarde e a cidade anda perigosa, pode ser ? Quanto ao que me disse, eu faço o que eu sempre faço: concordo contigo e terminamos essa conversa por aqui — Disse ele. Olhei pra ele e disse — Vamos logo, então.

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