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22 de junho de 2011

Estamos com fome de amor

Uma vez Renato Russo disse com uma sabedoria ímpar: "Digam o que disserem, o mal do século é a solidão". Pretensiosamente digo que assino embaixo sem dúvida alguma. Parem pra notar, os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias.

Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam sozinhas. E saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos.

Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos "personal dance", incrível. E não é só sexo não, se fosse, era resolvido fácil, alguém duvida?

Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão "apenas" dormir abraçados, sabe, essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega.

Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção. Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como voltar a "sentir", só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós.

Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos Orkut, o número que comunidades como: "Quero um amor pra vida toda!", "Eu sou pra casar!" até a desesperançada "Nasci pra ser sozinho!".

Unindo milhares, ou melhor, milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.

Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos. Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa. Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega.

Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí? Seja ridículo, não seja frustrado, "pague mico", saia gritando e falando bobagens, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta.

Mais (estou muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso a dois.

Quem disse que ser adulto é ser ranzinza? Um ditado tibetano diz que se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele. Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é out, que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me aventurar a dizer pra alguém: "vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo, tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida".

Antes idiota que infeliz!

Arnaldo Jabor

14 de junho de 2011

Aconteceu na Praça XV

(...) O dia se reduzindo à sua exigüidade de ônibus tomados e máquinas batendo telefones cafezinhos pequenas paranóias visitas demoradas ao banheiro para que o tempo passasse mais depressa e o deixasse livre para. Para subir rápido a rua da Praia, atravessar a Borges, descer a galeria Chaves e plantar-se ali, entre o cheiro dos pastéis, gasolina, e o “ardido-suor-dos-trabalhadores-do-Brasil”, tentava inutilmente dar uma outra orientação ao cansaço despolitizado e à dor seca nas costas, alguém compreenderia? E para que tudo não doesse demais quando não era capaz de, apenas esperando, evitar o insuportável, fazia a si próprio perguntas como: se a vida é um circo, serei eu o palhaço?

Caio F.

10 de junho de 2011

O livro sobre Nada

* Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
* Tudo que não invento é falso.
* Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
* Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
* É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
* Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.
* Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
* A inércia é o meu ato principal.
* Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
* O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
* A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
* Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
* Por pudor sou impuro.
* Não preciso do fim para chegar.
* De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.
* Do lugar onde estou já fui embora.

Manoel de Barros

8 de junho de 2011

"Bliss" - Katherine Mansfield

"Embora Bertha Young já tivesse trinta anos, ainda havia momentos como aquele em que ela queria correr, ao invés de caminhar, executar passos de dança subindo e descendo da calçada, rolar um aro, atirar alguma coisa para cima e apanhá-la novamente, ou ficar quieta e rir de nada: rir, simplesmente.

O que pode alguém fazer quando tem trinta anos e, virando a esquina de repente, é tomado por um sentimento de absoluta felicidade — felicidade absoluta! — como se tivesse engolido um brilhante pedaço daquele sol da tardinha e ele estivesse queimando o peito, irradiando um pequeno chuveiro de chispas para dentro de cada partícula do corpo, para cada ponta de dedo?

Não há meio de expressar isso sem parecer "bêbado e desvairado?" Ah! como a civilização é idiota! Para que termos um corpo, se somos obrigados a mantê-lo encerrado em uma caixa, como se fosse um violino raro, muito raro? (...)

Dentro do peito, no entanto; havia ainda aquele ponto brilhante, incandescente, de onde saía uma chuva de pequenas fagulhas. Era quase insuportável. Ela mal tinha coragem de respirar, por medo de atiçar aquele fogo ainda mais; contudo, respirava fundo... fundo. Quase não tinha coragem de olhar-se no espelho frio; mas olhou, e ele mostrou-lhe uma mulher radiante, com lábios trêmulos, sorridentes, grandes olhos escuros e um ar de quem está à espera de que alguma coisa... divina aconteça. Ela sabia que iria acontecer infalivelmente (...)"

Katherine Mansfield

30 de março de 2011

Crônica do Amor

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco. Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então? Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome. Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara? Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor? Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Não funciona assim. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó! Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.

Arnaldo Jabor

25 de março de 2011

Valer a pena, remar

Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também.Tá me entendendo? Eu sei que sim. Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena.
Remar.
Re-amar.
Amar.

Caio F.

28 de fevereiro de 2011

História dos Sentimentos

Os Sentimentos Humanos certo dia reuniram-se para brincar. Depois que o Tédio bocejou três vezes por que a Indecisão não chegava a conclusão nenhuma e a Desconfiança estava tomando conta, a Loucura propôs que brincassem de esconde-esconde. A Curiosidade quis saber todos os detalhes do jogo, e a Intriga começou a cochichar com os outros que certamente alguém ali iria trapacear. O Entusiasmo saltou de contentamento e convenceu a Dúvida e a Apatia, ainda sentadas num canto, a entrarem no jogo. A Verdade achou que isso de esconder não estava com nada, a Arrogância fez cara de desdém pois a idéia não tinha sido dela, e o Medo preferiu não se arriscar: "Ah, gente, vamos deixar tudo como está", e como sempre perdeu a oportunidade de ser feliz. A primeira a se esconder foi a Preguiça, deixando-se cair no chão atrás de uma pedra, ali mesmo onde estava. O Otimismo escondeu-se no arco-íris, e a Inveja se ocultou junto com a Hipocrisia, que sorrindo fingidamente atrás de uma árvore estava odiando tudo aquilo. A Generosidade quase não conseguia se esconder porque era grande e ainda queria abrigar meio mundo, a Culpa ficou paralisada pois já estava mais do que escondida em si mesma,a Sensualidade se estendeu ao sol num lugar bonito e secreto para saborear o que a vida lhe oferecia, porque não era nem boba nem fingida; o Egoísmo achou um lugar perfeito onde não cabia ninguém mais. A Mentira disse para a Inocência que ia se esconder no fundo do oceano, onde a inocente acabou afogada, a Paixão meteu-se na cratera de um vulcão ativo, e o Esquecimento já nem sabia o que estavam fazendo ali. Depois de contar até 99 a Loucura começou a procurar. Achou um, achou outro, mas ao remexer num arbusto espesso ouviu um gemido: era o Amor, com os olhos furados pelos espinhos. A Loucura o tomou pelo braço e seguiu com ele, espalhando a beleza pelo mundo, desde então o Amor é cego e a Loucura o acompanha. Juntos fazem a vida valer a pena - mas isso não é coisa para os medrosos nem os apáticos, que perdem a felicidade no matagal dos preconceitos, onde rosnam os deuses melancólicos da acomodação.

Adaptado por Lya Luft. A autoria do texto é desconhecida.

30 de janeiro de 2011

É possível um rio secar completamente ?


É possível um rio secar completamente?
— Claro que é.
— Mas será que ele não enche depois? Nunca mais?
— Alguns sim, outros não.
— Mas nunca mais?
— Sei lá, acho que não.
— Você tem certeza?
— Certeza eu não tenho. Só estou dizendo que acho. Afinal não sou nenhuma especialista em matéria de rios, secos ou não.
— Sabe?
— O quê?
— Eu tinha esperança que o rio voltasse a encher um dia.
Caio F.

11 de janeiro de 2011

Lição de Van Gogh

"Vincent van Gogh sempre pintava as árvores tão grandes que elas iam além das estrelas. As estrelas eram pequenas, o Sol e a Lua eram pequenos e as árvores eram imensas… Alguém perguntou a ele: “Você é maluco? Por que nunca pára de pintar árvores tão grandes? A estrela mais longínqua fica a milhões e milhões de anos-luz e as suas árvores sempre vão além das estrelas! Que maluquice é essa?” E Van Gogh riu e disse: “Eu sei! Mas sei de outra coisa também, da qual você não se dá conta. As árvores são os anseios da terra para transcender as estrelas. Eu estou pintando os anseios, não as árvores. Estou mais preocupado com a fonte, não com o objetivo. E irrelevante se elas alcançam as estrelas ou não. Eu pertenço à terra, sou parte dela e compreendo o anseio da terra. Esse é o anseio da terra expresso através das árvores — ir além das estrelas.”
(Osho)

31 de dezembro de 2010

Pessoa inteligente

Conta-se que numa cidade do interior um grupo de pessoas se divertia com um idiota da aldeia. Um pobre coitado, de pouca inteligência, vivia de pequenos biscates e esmolas. Diariamente eles chamavam o idiota ao bar onde se reuniam e ofereciam a ele a escolha entre duas moedas: uma grande de 400 réis e outra menor, de 2.000 réis. Ele sempre escolhia a maior e menos valiosa, o que era motivo de risos para todos. Certo dia, um dos membros do grupo chamou-o e lhe perguntou se ainda não havia percebido que a moeda maior valia menos. "Eu sei" - respondeu o tolo assim: "Ela vale cinco vezes menos, mas no dia que eu escolher a outra, a brincadeira acaba e não vou mais ganhar minha moeda.

Pode-se tirar várias conclusões dessa pequena narrativa. A primeira: Quem parece idiota, nem sempre é. A segunda: Quais eram os verdadeiros idiotas da história? A terceira: Se você for ganancioso, acaba estragando sua fonte de renda. Mas a conclusão mais interessante é: A percepção de que podemos estar bem, mesmo quando os outros não têm uma boa opinião a nosso respeito. Portanto, o que importa não é o que pensam de nós, mas sim, quem realmente somos. O maior prazer de uma pessoa inteligente é bancar o idiota, diante de um idiota que banca o inteligente.

Arnaldo Jabor

24 de dezembro de 2010

O mapa astral de Caio Fernando Abreu

Caio Fernando Abreu: Uma literatura de epifanias
Artigo publicado no jornal Zero Hora – caderno de Cultura de 20/10/2007

“Acredito em Deus e em muitas formas do mistério. Sou astrólogo, embora não profissional, há 20 anos. Tenho uma curiosidade imensa de saber por que estou vivo, o que significa o céu, o que significa morrer. Portanto, é natural que em meu trabalho estejam presentes todas essas ânsias filosóficas exaltadas. Muitas vezes o que torna digna a vida de um homem é o fato de ele olhar para o céu e dizer “Meu Deus, que coisa imensa…” E perguntar: “Por que eu estou aqui” Toda forma de criação artística é uma maneira de procurar essas respostas.”
(Caio Fernando Abreu)

Para entrar no clima de Caio F. escuto Erik Satie, que ele adorava, e observo seu mapa astrológico, feito pelo próprio, em meio a papéis datilografados de uma velha carta. Do mapa deste virginiano, artesão perfeccionista da palavra, que dizia escrever para organizar o inorganizável caos, emerge uma onipresente marca d’água: como os caminhos que faz este elemento, rumo à profundidade, como a emoção indelével que Caio deixa impressa em nós, seus leitores e amigos. Não por acaso suas configurações astrais reiteram o simbolismo aquático, que tem múltiplas conotações ligadas aos estados anímicos e ao mundo dos sentimentos, vividos intensamente na vida e na obra. Caio queria ser um mago, como ele mesmo falou em uma de suas primeiras entrevistas. Queria ser o que foi: mago, xamã, inspirado encantador de serpentes e operador de metamorfoses, sábio transmutador a tanger com seu condão aquele ponto exato em nós, nos despertando e, não raro, nos perturbando, instigando a ir mais fundo, além do ponto.

O interesse pela metafísica, pelo esoterismo, pelas filosofias orientais e pela astrologia integrava sua experiência pessoal e era vivenciado com respeito e reverência. Caio foi um profundo conhecedor da astrologia e astrólogo altamente intuitivo, compartilhando sua visão através de seus textos. Em Caio, literatura e vida não se descolam, andam juntas, caminho que se faz ao caminhar. O escritor utiliza elementos simbólicos, mitológicos e principalmente astrológicos em seu trabalho, ora como simples referência, ora como vetor na construção ficcional, de forma deliberada. O livro "Triângulo das águas" se destaca dos demais por apresentar uma estrutura narrativa norteada por princípios astrológicos. Através do simbolismo dos signos de Água — Câncer, Escorpião, Peixes –, relacionados a cada um dos três contos que constituem a obra, é representado o processo de transformação interior de seus personagens: seres à procura da verdade e de um sentido para suas existências sufocadas pela pressão urbana e pela solidão.

Na mesma carta de 20 junho de 1988, em que me enviou seu mapa, Caio comenta a intenção de escrever outros livros usando os elementos astrológicos: “Ando com uma longa história na cabeça. A se chamar 360 Graus. Queria dividi-la em capítulos, assim: 30 graus (o semi-sextil), 60 graus (o sextil) e assim por diante. É uma história de amor, claro. Na verdade ainda não decidi se será 360 ou 180 graus. Estou naquela fase de anotar e ler coisas, à espera de que a Vida (essa senhora tão temperamental) me dê mais alguns – digamos – subsídios. Tenho para mim que ela é quase, talvez, a “grande obra”. Não sei se é um livro só ou parte de um, como o Triângulo das Águas. Era um projeto antigo meu: três histórias para os signos de Água, três para o Fogo e assim por diante — até completar a mandala dos 12. Quem sabe consigo?” Esse é mais um dos tantos projetos bacanas que ficaram espalhados por anotações em guardanapos, cartas e diários, sem tempo de realizar.

A literatura de Caio — com seu mix bem temperado de amores, sexo, viagens, cidades, drogas, psicanálise, meditação, astrologia, filosofia oriental, candomblé, tarô, cultura pop, poemas, filmes & canções — mostra sua trajetória pessoal na busca de sentido e de revelação e, ao mesmo tempo, propõe ao leitor um convite para embarcar em sua própria jornada de busca de autoconhecimento, de significado da existência, de crescimento e de transcendência. É impossível ler Caio Fernando Abreu e manter aquela “mesma velha idéia formada sobre tudo”.

Por Amanda Costa. Astróloga, autora do livro “Astrologia o Cosmos e Você”, mestranda em literatura brasileira (UFRGS).

23 de dezembro de 2010

Gosto de pele, de cheiro, de amor verdadeiro

Preciso muito que alguma coisa muito muito boa aconteça na minha vida, alguma coisa, alguma pessoa. Acho que tenho medo de não conseguir deixar que o passado seja passado, de aceitar verdades pela metade, de viver de ilusão! Eu preciso muito muito deixar acontecer o momento da renovação, trocar de pele, mudar de cor. Tenho sentido necessidades do novo, não importa o quê, mas que seja novo, nem que sejam os problemas. Preciso abandonar essa "mania de passado"; retirar os entulhos, deixar a casa vazia para receber nova mobília! Fazer a faxina da mente, da alma, do corpo e do coração! Demolir as ruínas e contruir qualquer coisa nova, quem sabe um castelo. Que seja doce.
(Caio Fernando Abreu)

18 de dezembro de 2010

Os meus melhores de 2009

No ínicio desse ano, resolvi listar os melhores do ano anterior. Agora, nesses últimos suspiros de 2010, irei colocar os meus melhores em determinadas categorias desse ano. Com isso, pretendo ver o quanto minha opinião muda, sim, porque eu e você fazemos parte de uma geração em constante evolução, tanto social, quanto cultural ou intelectual. Abaixo, os meus melhores de 2009.

Melhor filme: "Divã"; Melhor clipe: "Habbit heart (Raise it up)" / Florence + the Machine; Música-tema: "Poker Face" / Lady GaGa; Artista do ano: Chico Buarque; Melhor peça: "Liberdade" de Adriana Sottomaior; Revelação: Banda Monaco Beach, Curitiba.

Esse ano, vou colocar mais categorias.

17 de dezembro de 2010

Teatro: "Amor e Ponto"

Na última sexta, realizei um dos meus sonhos: assistir uma peça de um dos escritores que mais admiro. Digamos que esse sonho se realizou, e transbordou pelas bordas de tão intenso e verdadeiro. Faltavam olhos para tantas lágrimas. O espetáculo foi dirigido pela diretora Adriana Sottomaior, que soube transformar com maestria contos que eu julgava impossíveis de serem adaptados para uma peça, como "Os sobreviventes" e a "Dama da Noite", em retratos tão próximos do nosso cotidiano, histórias tão Caístas em cenas urbanas tão reais, sempre com o mesmo fim, esse ponto que o amor insiste sempre em dar. "Amor e ponto", pra quem conhece o Caio, pode ser a peça mais dilacerante que existe, mas também, pode ser um recado, embora indireto, de que o amor existe, mesmo mascarado de ódio e fúria, sua existência está aí, e nos acompanha cautelosamente. E o "escritor da paixão", como disse Lygia Fagundes Telles, sempre soube nos alertar dessa existência tão perturbadora de uma forma tão viva e árdua.

8 de dezembro de 2010

Tudo é o olhar

Não te amo mais
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis
Tenho certeza que
Nada foi em vão
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada
Não poderia dizer mais que
Alimento um grande amor
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
Eu te amo!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais

(Agora, leia de baixo para cima)

Clarice Lispector

12 de outubro de 2010

Frustações

Certas pessoas vivem brigadas consigo mesmas,
brigadas com a vida. Então, elas começam a criar uma
espécie de peça teatral na cabeça delas, e escrevem
o roteiro de acordo com suas frustrações.

Paulo Coelho

1 de outubro de 2010

Literatura: Chico Buarque


Sem dúvidas, um dos melhores livros que eu tive a oportunidade de ler.
Sabe aquele tipo de livro que não merece ser provado, mas devorado ?
Pois então. A forma despadronizada e repetitiva que Chico Buarque usa,
consegue provocar o leitor, deixando-o cada vez mais esfomeado a cada
página virada. Mesmo moribundo, encravado numa cama de
hospital
e morando na periferia,
a personagem principal mantém a finesse
e suas exigências dos tempos em que
vivia num casarão requintado,
onde viu
dia após dia, a decadência de sua família de descendentes
da nobreza europeia.
Sua desilusão amorosa prova que por trás de
sua máscara de arrogância e
prepotência, havia sim, um homem
apaixonado que faria loucuras para fazer da amada uma princesa,
uma rainha. Extremamente profundo, sem ser apelativo e piegas.

11 de agosto de 2010

Cinema: "Dama da Noite"

Vídeo produzido pelos alunos de cinema da PUC/RS em julho de
2008, com base no texto "Dama da Noite" de Caio Fernando Abreu.



"... mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio
desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado comigo: um dia encontro."

5 de agosto de 2010

Literatura: Clarice Lispector

Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas,
das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos
pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes…
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos. Você pode
até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer: - E daí?
Eu adoro voar! Não me deem fórmulas certas, por que eu não
espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de
mim, por que vou seguir meu coração. Não me façam ser quem
não sou. Não me convidem a ser igual, porque sinceramente
sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de
mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma,
mas com certeza não serei a mesma pra sempre.
Clarice Lispector

24 de julho de 2010

Transformações (uma fábula)

Publicar postagem
Uma coisa interessante no Caio F. Abreu é a maleabilidade dos
textos dele. Parece que os textos dele são feitos quebra-cabeça,
e que em cada peça uma nova emoção, sentimento, serão sentidos.

"Emerso, chafurdava em emoções: tinha desejos violentos, pequenas gulas,
urgências perigosas, enternecimentos melados, ódios virulentos, tesões
insaciáveis. Ouvia canções lamurientas, bebia para despertar fantasmas
distraídos, relia ou escrevia cartas apaixonadas, transbordantes de rosas
e abismos. Exausto, então, afogava-se num sono por vezes sem sonhos,
por vezes - quando o ensaio geral das emoções artificialmente provocadas
(mas que um dia, em outro plano, aquele da terra onde, supunha, gostava
de pisar, aconteceriam realmente) não era suficiente - povoado com répteis
frios, a tentar enlaçá-lo com tentáculos pegajosos e verdes olhos de pupilas
verticais."

Caio Fernando Abreu