
Sua vida era um filme iraniano com legendas em russo, os atores eram vindos de todos os cantos, amadores ou profissionais, michês ou gozadores. O vento soprava o cabelo, abraçava o corpo e se não fossem por questões gravitacionais e físicas, poderia levar junto com folhas secas, bitucas de cigarro, papéis de bala, santinhos de limpa-fossa e de egípcias videntes também aquele corpo, cujos passos se enroscavam na tentativa frustrada de se equilibrar em cima das afiadas navalhas apontadas para cima que desabrochavam pelo caminho. Enquanto escutava de longe alguma música aleatória vinda da sala, afogava no copo de leite um biscoito recheado; pensou em como é fácil se sentir diabético no inverno e que precisava renovar o guarda-roupa para o próximo verão. Não querendo fisgar novamente certo pensamento, se quedou confuso; se lembrara dos extintos chás, dos segredos debaixo do travesseiro, das músicas escutadas, da pureza infiltrada, dos primeiros sonhos, das últimas palavras. Cabe em seu peito e não acha defeito no jeito perfeito do sorriso feito pra emoldurar as galerias por onde seu perfume passar, também não espera novas correspondências, inclusive mudou de endereço.
Cecília deve ser uma garota de sorte, seus textos sobre ela são maravilhosos.. Parabéns.
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