E Penélope continuava a ouvir "Noviça Rebelde"; era o que fazia há algumas horas. Enquanto isso, o velho mendigo abria os olhos que pareciam grudados, enquanto suas orelhas acompanhavam a sinfonia urbana de buzinas, arrancadas, freadas, rádio sertaneja, passos nervosos dos transeuntes fazendo parceria com os barulhos vindos de seu estômago. Foi quando Penélope decidiu que ela mesma iria comprar as flores. O maltrapilho tinha as juntas danificadas, os dentes podres, as sobrancelhas fartas, os olhos sofridos, mas claros, essencialmente, claros. Carregava no saco de lixo o seu mundo: o pouco do passado que não havia desfeito e um futuro que não tinha. O seu presente era guardado nos olhos cansados, sedentos pelo colírio da Morte. Penélope havia descansado pouco a noite, talvez o medo dos corriqueiros pesadelos fosse mais cômodo que o amargo do café; mas ela era recompensada com filmes europeus com travestis velhas, Ingrid Bergman e umas três, quatro de duração. Já composto, o velho descia pelas ruas com o rosto de lado, não que tivesse medo de ser identificado, ele tinha medo era de ser percebido. Mas também admirava as belas curvas das moças desse tempo, as roupas bonitas e os carros modernos, no entanto, no fundo do seu silêncio, ele desfiava os tempos onde as histórias eram bordadas a mão, onde os meninos e adolescentes eram meninos, adultos eram velhos e os velhos eram raridade; de quando papai era tropeiro e trazia pedrinhas da beira do Tibagi pra aumentar sua coleção. Penélope foi comprar rosas vermelhas na floricultura de sempre e a atendente, atrapalhada, retirava os espinhos como se lixasse a ponta de uma agulha. As rosas ela iria levar no túmulo da vó, falecida recentemente. O pobre mendigo sentira que aquele seria seu último dia de vida, o que na verdade ele sentia diariamente; só faltava-lhe agora a sua consumação. Pensava que a vida, - que vida!? - pensava ele assim, quando ensaiava em pensar na possibilidade daquilo, a vida. Já um pouco cansado da caminhada, senta-se num banco de praça e, aflito, suspira aos céus e cochicha com Deus. Penélope ficou inconformada por ter que pagar uma taxa a mais pela poda, e saiu da floricultura sem pegar o troco. Seus passos eram cada vez mais apressados, as horas cada vez mais valiosas e a distração cada vez mais inconveniente. Foi quando ao chegar numa praça, seu arranjo de rosas se desfez pelo chão. Desesperada, ainda acaba se espetando com um espinho mal retirado, o que a faz praguejar até a décima geração da atendente da floricultura. Segurou as rosas e decidiu se sentar num banco, ao lado de um senhor mal vestido que tinha um olhar aflito, o qual apontava para cima. Conversando com Deus, o velho mendigo sentiu um aroma doce de perfume feminino e notou uma bela jovem, de feição irritada, sentada ao seu lado. Até pensou em falar algo, porém, a irritação da moça com um machucado na mão parecia colocá-la numa redoma à prova de diálogos com alheios à sua dor. O homem fecha então os olhos e começa a cantar uma velha canção que remete os tempos de infância: "Nananana... Edelweiss... Edelweiss, every morning you greet me, small and...", e é interrompido pelo esquecimento da letra. Quando tentava recuperar fôlego para levantar-se, Penélope é surpreendida com uma música conhecida que a voz rouca e quase inaudível do maltrapilho parecia querer que ela ouvisse, ou ao menos, escutasse. Manteve-se intacta e, emocionada com qual música cantava, levou uma de suas rosas ao colo do mendigo que parecia não saber cantar o resto da melodia. O mendigo sentiu algo espetá-lo; parecia espinho ou ponta de alfinete, mas mesmo assim, manteve os olhos fechados e buscava recordar-se da letra da melodia nostálgica e adormecida. Penélope bordou um sorriso no rosto e pensou em como a vida era boba e insensata, mas que nunca esquecia de oferecer uma melodia inesperada ou desesperada pra tentar fazê-la abrir um sorriso. A voz do mendigo se cadenciava no som do balanço dos carvalhos que enfeitavam a praça, ele sentia o corpo mole, a visão não muito nítida e uma rosa posta em seu colo. E então fechou pela última vez os olhos; Deus o havia escutado.
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