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12 de agosto de 2012

Versos de estante

Coloquei o amor numa estante
Como um livro de histórias excitante
Mas não passou um instante
E o meu peito veio invadir


Acostumado com infinidades
Em satisfazer suas vontades
Modesto ele seria se ocupasse todo espaço
Por isso, amiúde repito
Esteja em casa, avarandado!


Abate, rebate, invade, domina
Sorrisos pode não dar e silêncios preferir
Surpreende, comove, transtorna, suprime
E no asfalto desenhar até que se acabe o giz

7 de maio de 2012

Tecendo a fazenda

Quando eu sair daqui vamos casar na fazenda onde tão feliz foi minha infância. Daremos um trato na casa de alvenaria, pintaremos as paredes de tons claros e escolheremos com cuidado os quadros da sala. De manhã cedo garantirei que teu café esteja no ponto: as torradas com sua geleia favorita, o seu achocolatado na caneca certa e pra não ser clichê, a rosa cheirosa eu só darei quando estiver se arrumando frente ao espelho, depois de abraçar-te por trás e sussurrar em teu ouvido: bom dia. O meu cavalo também será teu, assim poderás cavalgar até o pé da serra pela estradinha estreita, cortada por um ribeirão de águas límpidas e pedras velhas. Cuidarei do jardim com garbo. Nele terá rosas graúdas, tulipas vermelhas, azuis e amarelas, camélias, gira-sóis, margaridas e aquelas pequeninas, que tem um cheiro deslumbrante. Todas invejaram a tua beleza, mas também desejarão ser colocadas atrás das tuas orelhas. De noite, não sobrará dúvidas de que serei teu por inteiro. O calor do forno a lenha a contrastar com a brasa nossa.

16 de março de 2012

21 de março

E parecia ontem que ela estava sentada naqueles gélidos degraus de uma escada predial que servia como esconderijo da última tentativa frustrada de lutar por uma provável felicidade plena. Esquecida e oprimida, enlouquecia no afinco das premissas do seu maior receio: permanecer apática a e censurada por suas dúvidas temíveis de como prosseguir. Buscava decorar frases previamente formuladas para enaltecer seus argumentos de fragilidade e busca de compreensão, por mais insólita que permitisse ser empregada. Na exuberante reflexão do desespero, contrariou toda e qualquer faculdade mental ao querer entender seu incompreensível coração, cujos objetivos estabelecidos eram incompatíveis às exigências de outrem, sendo assim, inadmissível prosseguir, mesmo com todas os esfolos e reticências dadas a temas relevantes. Hoje permanece ininteligível, carente de desejo de interpretação, irresoluta e ao mesmo tempo faz pensar se.

13 de março de 2012

A donzela da janela

Ele só queria ter uma janela frente à dela, para que nos dias de inverno ele pudesse dormir quentinho e quietinho, pensando no retrato da face dela. Ele precisava somente de um suspiro, mas pensativo, quedou-se também necessitado dos beijos da donzela, que de tão bela, fazia-o abraçar o travesseiro. Ela sabia ser gentil, suas mãos eram afamadas pela maciez de sua doçura juvenil e no conjunto da obra também expunha lindos olhos pacíficos pactuados com um sorriso que debutava uma nova primavera a cada gracejo do seu recato pueril. Ele só queria fazer morada no jardim da moça, para abrir-se em flor a cada olhar disparado por retinas tão sublimes e sem regimes, dizer que era dela seu desajeitado coração.

29 de fevereiro de 2012

Retrato apagado

E como ressaca violenta, invade a costa, apunhá-la as costas e sem respostas, não sabe justificar. O desvario do desentendimento não havia reservado curativos nem lenço, jogou porcos às pérolas e interrompeu sonhos só pra provar que era um pesadelo. Estrelas sem rumo e dos anéis de saturno a sombra eterna de um escuro descuidado, tão nítido quanto o vazio esparramado nas palavras incertas do poeta que festejava quando o poema parecia ritmado. E das lágrimas de quem faz poesia não sobra outra alternativa a não ser irrigar os campos férteis do desengano, os latifúndios de suntuosas mentiras, das oligarquias de um insano opressor, das cabreiras sem eiras nem beiras, todas que queiras não chamar pelo nome. E depois de aprender que vive suprimido em sua agrura, de fato aquele retrato em cima da mesa fará algum sentido, embora descolorido.

24 de outubro de 2011

Roma

E sua função iria além de esquentar pés, estalar dedos, pegar um copo de coca e fazer cafuné debaixo da orelha. Suas mãos iriam além das curvas incertas, dos cabelos medusos, das sobrancelhas espessas e dos céus imaginários que surgiam conforme a intensidade de suas nostalgias quando as contava deitado. Suas expressões de amabilidade e simpatia seriam suficientes para abismar quaisquer sentimentos algozes que pudessem aparecer com suas agulhas, foices e machados suspensos na farda suja do soldado. No silêncio do quarto: um dilema profano. A luz amarela, os restos de sono nos restos de olho, perdia-se a fumaça no vasto teto, achava-se uma teia de aranha atrás da porta. Os dedos descobertos e as canelas de fora, os olhos atentos enquanto outra melodia tocava lá fora, a seiva escorria criando uma nova rota por entre a secura da casca. Nesses dias ainda acreditava-se que as estrelas eram pequenos furos da pavimentação do céu. Nesses dias ainda acreditava-se em Roma invertida.

12 de outubro de 2011

Versos soltos

Esses dias havia ido tomar um pouco de sol no jardim, ao som de algum som veranil que vinha da janela do quarto. Quando me sentei, pensei que era justo aumentar o som da música, afinal, o sol estava árduo e vivo, se integrando ao meu corpo pálido, cálido por seus raios vívidos, retumbantes. Liguei o volume ao máximo, voltei à minha esteira imaginária, me aconcheguei na parede úmida e estiquei as pernas sob os ladrilhos vermelhos da varanda e disparei um olhar certeiro para o sol que, impiedosamente, havia sido substituído por colônias de nuvens nebulosas bandidas que não me satisfariam nenhum pouco sequer. Foi então que me indaguei se era assim também com o amor; seria ele a diretriz que nos salpica com raios de profundo torpor e paixão, nos aquece no zêlo de um abraço e nos torna mais rijos nas fotossínteses e mutações do dia-dia ? Talvez fosse. Eu não tinha o sol ali, mas sabia que de algum lugar ele enviava raios que fulminavam na minha existência, assim como o amor que se esconde atrás das nuvens pra trazer-me uma sombra que seja.

28 de setembro de 2011

Joelhos ao pé da cama

Vai à tristeza e diga-lhe que triste não vou ficar
pode parecer incerteza
beleza, não precisa acreditar
só não espante se a frieza atingir-te em cheio
os dias nublados tomados de breu
deveras por descuido ou porque assim
escreveu o destino teu

Palavras podem ser doces
extraídas do peito como se fossem mel
adocicadas no sabor daqueles lábios
que um dia me foram a fel

Sobre a mesa deixou um trocado, escreveu
um recado no canto do guardanapo amassado
meu amor, não me resta outro regalo a não ser
o sorriso teu

Vai à ela e diga-lhe que sobrou um espaço
que não é fácil sua ausência suportar
e que quando volta resta a certeza
de que muitos abraços irei lhe dar
espanta a frívola tristeza
esconde-me debaixo das saias da condessa
livra-me do mal e das cruéis segundas-feiras

Amém.

19 de setembro de 2011

Janela, janelinha

A lua estava bem no centro da janela-de-teto e a luz do luar iluminava seu rosto insone: era acinzentado e transparente. Blin blon.

6 de agosto de 2011

Azul como a noite

E era todo aquele mundo o que ele tinha. Cheio de festas jovens intituladas de maiores espetáculos do fiasco da geração arroba, de espelhos mais fáceis de se adquirir que sorrisos, de silêncio menos desejável que o suicídio, de meios mais surpreendentes que o fim. Enquanto isso garotas suecas, de vestidos vintage, maquiagem leve, violão no braço e um poema na mão cantam em louvor dos anjos que protegem os bosques nas tardes de sábado. Embriagado de sonhos e desejos, resolveu que não era hora de parar, os caminhos estavam, de fato, abertos. E isso não parecia o isso pouco que isso deveria representar. Na mesma hora, crianças chinesas estão tendo aulas práticas e teóricas de como revolucionar o mundo. Parecia que o mundo obedecia ao contrário dos seus movimentos, era uma gangorra sem ganchos, disputa acirrada onde a perdedora já era a ilusão de ganhar. Eram canais e canais de tevê a cabo e uma preguiça enorme de soletrar a palavra viver. Mas tinha o amor, ainda não era polido, mas carregava altíssima pureza em sua matéria-prima. No exato momento, pensou que viver era mais rentável que sonhar. Os sonhos, apesar de bons e necessários, não precisam virar o feitiço que nos arremessa ao abismo que nós mesmos cavamos, o que até até aquela altura do campeonato era tido como "de praxe". Tal mundo parecia ter resolvido ficar na caverna mesmo e trancafiar todas as suas saídas às sete chaves, mas ainda havia alguns sonhos anjos da guarda, que guiavam o caminho e deixavam-no um pouco mais iluminado.

16 de julho de 2011

O Sabiá e o Assum Preto

Mal fechara os olhos, o Assum Preto, partia longe pra não voltar
Sabiá confuso e estrangeiro, fiquei sem jeito, levantei minhas asas e fui cantá
Levei comigo todo o desejo de algum dia, um novo ninho, ali decorar
Chorei um pouco, guardei no peito, abri as asas, pus-me a voar

Um belo dia, tal do Assum Preto, resolveu por aqui cantar
Eu, Sabiá atilado, do seu canto quis de novo escutar
Fechei meus olhos e no seu mel de fel, de gozo pude exclamar
Mas ignorante, o Assum Preto, voou pra longe, deixou comigo o seu olhar

Quiçá um dia, noutro momento, seu canto invada o meu pomar
Abro as janelas, retiro as grades, faço um poleiro
É só ele ver o Ipê Vermelho, dobrar a esquerda e me encontrar
De longe o vejo, chega cansado, e traz meus beijos em seu olhar

30 de junho de 2011

Ensejo dos dias próximos

E ainda restava um pouco da noite em seus olhos, olhos que refugiavam um azul desbotado, que eu faria questão de num porta-retratos emoldurar. Naquela casa só de paredes, nuvens e uma lua de papelão resolvi presentear. Ele, bem discreto e sorridente, estrela daquele limitado céu resolveu me tornar. E ríamos vendo programas locais, entrevistas de ex-vedetes, cantoras bregas dos anos oitenta, filmes hispânicos de travestis desajeitados ou quando planejávamos fazer algo no fim de semana. Era luz o seu sorriso: iluminava novos calendários, acertava novos ponteiros e acumulava a vontade de pedir bis pra cada segundo compartilhado ou simplesmente vivia cada dia espreitando o ensejo de viver o próximo. Eram assim aqueles dias, onde além da noite, também restava brilho naqueles olhos.

10 de junho de 2011

Morangos na janela

Eram duas avelãs aquilo que chamam de olhos, dentro delas se refugiava o impenetrável, o inatingível, o intragável e aquilo, intencionalmente, eu chamava de meu. Escondia dentro aquilo que não conseguia carregar comigo mesmo e minerava de lá o que me era escasso. Amanhecia o dia e lá estavam elas, pediam-me em sigilo que as libertassem da prisão noturna ou simplesmente me ofereciam afeto, sem que eu fizesse o pedido. O fato é que me causavam medo e nas suas estribeiras eu perdia as minhas, difícil era caminhar numa simetria projetando tortuosas arestas, mais difícil foi perceber que minha semi-reta vida continuava. O calendário corria e só oferecia mistérios, as noites se escondiam debaixo do travesseiro, o silêncio bruto desafiava o exagero de um inábil amor que mergulhava o coração na cafeteira, sem bóias.

De repente, abri a janela e sorri: ainda era tempo de morangos.