
Confundia a ilusão de viver com a ilusão de morrer. Assim, morria quase todos os dias; dias taquicárdicos, hepáticos, antipáticos, apáticos. Nem os novos dias primaveris a surpreendiam mais. No máximo, conseguiam dar a deixa aos pensamentos de outrora: aqueles nostálgicos que remetiam uma infância decorada com personagens Disney, florzinhas amarelas, samambaias carregadas e os reclames da mãe inconformada com a sujeira que a beleza da natureza deixava na calçada irregular. Também desfiou da memória os fios que costuravam os panos de prato que voltemeia rasgava, propositalmente, para costurar depois. O trabalho não era dos melhores, mas a mãe sempre agradecia pelo feito. Naquela época, um sonho de valsa custava cinquenta e cinco centavos e o mundo todo sorria quando ela conseguia juntar um real e dez centavos; o primeiro ela comia no caminho, como se fosse um fruto proibido, o segundo ela comia enquanto assistia Castelo Rá-tim-bum, sempre às quatro da tarde.
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