8 de dezembro de 2011

Marechal de Ferro

Seria de extremo mau gosto cultivar a ilusão de encontrar alguém que pudesse tomar conta de todas as suas fraquezas e frustrações. O objetivo nunca havia sido esse, é claro, ela só tinha alguns medos bobos, as unhas desfeitas e um copo de café bem adoçado. A paisagem estava bonita e limpa. Alguns estranhos passavam à sua frente, dois vieram pedir-lhe uma moedinha, um outro o seu isqueiro e outro alheio queria saber como chegava no Terminal do Guarda Lupe. Mantinha em seus pensamentos aquele que fazia seus dias felizes; ela sabia que precisava deixá-lo também sentir medo. O gesto involuntário de amá-lo enaltecia o desejo de tê-lo ainda mais no dia seguinte, mesmo que este fosse um domingo chuvoso, com os colegas do vizinho sentindo-se em casa e berrando, gorfantes, pelo condomínio a vitória do time do peito. Desejou boas festas ao Marechal de Ferro, imortalizado num busto em pedra-sabão que também servia como toalete de ovíparos voadores, cumprimentou Tiradentes, que de longe parecia um guerreiro farrapo, atravessou a rua distraída e só se deu conta da sua desatenção quando um automóvel vermelho freou bruscamente, vindo em sua direção. Escutou três estridentes buzinadas e alguns insultos comumente entoados por motoristas que deveriam fazer autoescola nas ruas de Nova Délhi. Ela continuou andando, sem virar para trás. Enquanto isso, aquele que fazia seus dias felizes construía uma canoa para duas pessoas.

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