
Era covarde, deixado de lado, pisoteado pelas notas da canção. Doido varrido, medíocre, cuja única função era preencher parágrafos e salientar a necessidade de todos saberem quem era ele. Andava pros lados com o rosto acabado e uma garrafa de cerveja barata na mão, a esquerda. Porque na direita ele segurava com classe e charme discutíveis mais um dos seus muitos cigarros de selo paraguaio, os quais sucumbia para dentro do peito como lâmina afiada num breu de silêncio. Seu caminho era tortuoso e o levava para um destino incerto que certamente o levaria a lugar nenhum a não ser que ele viesse a levantar suas nádegas do sofá financiado nos Móveis Usados da Riachuelo e fosse a luta como bravo homem que era ou julgava ser e que ainda dependia das projeções aritméticas dos astros e orixás para sentir-se seguro de suas possíveis e raras ações. Nas noites sóbrias ainda conseguia soletrar o nome daquela que nada sóbria esculpia os seus dias, a chamavam de Penélope Sangria, metade mulher metade amargura, que fazia de seu corpo âmago de poesia, embalava alegria no verso que era pra ser triste e o protegia dos falsos provérbios que serpenteavam pelo eufemismo daqueles dias. Indomado, um dia saiu de casa pra nunca mais voltar, só pensando que vida era aquela que pra ele queriam dar. Partiu para o mundo, conheceu novas mulheres, tatuou-as no peito, escreveu poesia e deixou com durex no espelho, comprou novas rosas e vida de cigarra achou que levaria. Hoje é suspeito pra dizer que amar é defeito, segue no mundo com seu jeito imperfeito e ainda surpreende-se com lua cheia, reza um bocado, faz silêncio dobrado pra algum dia não ter que acordar de novo assim. Foi quando o despertador tocou.
Ilustração: Hanna Viktorsson
Ilustração: Hanna Viktorsson
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