Parecia um canto místico, enigmático, vindo por trás daquela vegetação
litorânea. Por trás dela, muita luz, muito som, não aqueles sons que se
ouvem em lugares com muita gente onde o "tuc tuc" move as pessoas
de uma maneira incompreensível, mas algo meio tribal, talvez um ritual,
ritual de iniciação de mais um guerreiro das matas, de mais um homem
que será marcado com o fogo e o sangue de sua tribo fervorosa. Então,
me deparo com um filete de água que corre corre corre e me faz recorrer
até sua beira. A água é tão cristalina que nem água parece ser, o jeito
com que desfila entre as pedras acinzentadas no fundo raso parecem
dar-lhe a impressão de um tapete de cristais, onde o reflexo das árvores
de tronco fino e altitude incontável se fazem num quadro em movimento.
O som da tribo fica cada vez mais estridente, muita fumaça, muito
canto, muita dança (Sim, pode-se ouvir o som dos pés dançantes num
passo cordenado, simétrico. Ou seria o som de chocalhos ?), e a noite,
ah! A noite se faz presente ali como o sangue que corre nas veias. Um
homem corre corre corre, se distrai ao me ver, parece que num segundo
pensou em parar para me fitar com mais precisão. Mas não, ele segue
sua corrida infindável por entre as clareiras labirintícas da mata virgem.
Não consegui observá-lo com atenção também, mas reparei na sua
roupa simples, cor de areia, com manchas de barro nas pernas e nas
costas. Sua tez era preta preta preta, preta feito carvão. Seus olhos
eram tão pretos quanto sua pele, o olhar era fugitivo, petrificado. Outro
som me chama a atenção no norte de onde estava, decidi não ir,
poderia ser algum caçador ou posseiro determinado à exterminar toda
a propriedade coletiva que ali se fazia presente. O som se intensificava.
Aquele som parecia um ímã, o pólo oposto ao meu medo. E assim fui.
Fui sem saber ao certo o que viria a me acontecer. Mas acreditei.
Por entre as clareiras que abria com meus braços ensagüentados,
comecei a notar que muito além, muito além do que os meus olhos
esperavam ver, muito além do que meus olhos queriam me mostrar,
havia um grande campo, onde uma rapariga, uma gúria de cabelos
louros, de vestido de bailarina todo amarrotado, com uma rosa de
um vermelho tão vibrante quanto a noite estrelada nas mãos e os espinhos
encravados em suas mãos tão juvenis, delicadas. Ela me olhou. Olhou
com tal intensidade que nenhum músculo seu ousou mexer. Olhou tanto
que não havia mais dor em suas mãos e em nenhuma outra parte do
corpo. Olhou tanto que a noite estrelada não parecia me contemplar
como a intensidade do seu olhar. Mas continuou estática, morta, viva.
Não que estivesse paralisado também, mas eu também sentia meu
corpo entusiasmado em não deixar de observar seu olhar de análise,
olhar de astúcia, olhar de medo. E ficamos assim. Pausados no Tempo,
ininterruptos na noite, que naquele momento só queria ser ela mesma.
Por um instante percebi que o som que tanto me atormentava havia se
encerrado, mas agora ele não me era importante, não atrapalharia meu
olhar atento para cada semblante que bailarina de pernas cruzadas como
uma ninfa grega fazia. Depois de um certo tempo, noto que seus músculos
parecem fazer um movimento de desibernação, e quando me toco ela está
diante de mim, impávida, plácida, misteriosa. Agora posso ver seus olhos,
são olhos como mel, o mel mais saboroso que havia naquele lugar que se
assemelhava bastante com algum lugar secreto na Indonésia ou no Congo.
Agora posso ver os seus lábios, lábios de quem nunca tocou os lábios em
outros lábios, lábios feitos com o mel de seus olhos. E ficamos ali, em busca
algum resquício de coragem pra dizer alguma coisa, mas estavámos bem,
pelo menos eu estava. Não queria entender mesmo sabendo que no final
de tudo as coisas tem uma explicação. Os olhos e os lábios se completavam,
e eu continuava à fitá-los, se completavam como se fossem a continuação um
do outro. A face era clara, pálida, anêmica. A face era uma máscara que eu
não queria retirar, máscara que escondia beleza, profundidade ou feiura,
abismo. Um som de algum instrumento de cordas tocava ao fundo, talvez
algum explorador que deve ter se cansado do seu andar que mais parecia
o de uma formiga puxando um elefante, e resolveu parar repousar. Quem
sabe, o explorador com uma flanela vermelha no pescoço esteja com medo
da noite estrelada e por isso toca toca toca, toca pra que a noite estrelada
o proteja das potestades selvagens tropicais da floresta. E então aproximava,
ela se aproximava como um fera que domina sua presa com os olhos.
Nunca havia pensado que ser atacado por uma fera selvagem em forma de
mulher seria algo que passaria por minha cabeça. E então se aproximou,
cada vez mais perto, os olhos cada vez mais misteriosos e os lábios como
um buraco negro. Até que frente a frente ficamos. Eis que um ruído profundo
e terrível repercutiu pelo ambiente. Então acordei. Ela ia me beijar ou me
apunhalar ? Até que quis voltar para o sonho, mas já não era mais hora de
sonhar. Sonhos cansam. Preciso trocar o som do despertador, pensei.
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