14 de junho de 2011

Cafés maltrapilhos com Bette Davis

E quando se deram conta, tomava ela um café simples e ele um chocolate quente canelado naqueles copos de tomar sopa. Ela apontou uma velha perua socialite desocupada com um olhar de Bette Davis, ele não poupou o sarcasmo ácido que lhe era devido. Inesperadamente, ela afundou os dedos gelados nas robustas mãos dele, enquanto isso ele extraía do fundo de sua sofrida memória palavras previamente definidas para serem ditas naquele momento (que acabaram não sendo ditas). Ela dizia que já tinha visto aquele velho maltrapilho várias vezes parado naquele mesmo poste, naquelas mesmas horas, naquele mesmo estado: apático. Demonstrando leve interesse no fato, ele disse que não gostaria de terminar seus dias assim, ela se calou. E no silêncio, idêntico aos velhos silêncios que entreligavam beijos, poesias bobas, tragadas de cigarro, goles épicos de café, comentários cinematográficos e estalos de dedo, simplesmente se fitaram. Vez em quando, palavras se datilografam em olhares culminantes de reciprocidade, não precisando serem proferidas ou expressas, somente sentidas. O momento era esse. Ela reclamava que o café estava amargo. Ele continuava a fitá-la.

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