Mesmo com as unhas roídas e o coração despido, Francisco Antunes mantinha seus olhos fixados no espelho. Nele, ele via um homem corado, de barba mal feita, mas de uma leveza ímpar. Não escondia a vontade de esvaziar as mãos dos problemas e apanhar um bocado de sonhos, como quem enfia a mão num pacote de confetes. Convencido de que o dia seria diferente, quem sabe um pouco ensolarado com temperaturas comuns de inverno, fechou os olhos e viveu.
Antunes, como era chamado, vivia uma vida x. Acordava na hora x, tomava duas xícaras de café no instante x, trabalhava com vontade x e se entendia como se fosse um y. A casa era simples, os dias nela também, o silêncio parecia regra e a sensação de que faltava alguma coisa era evidente. Vezenquando, compunha versos bobos e os dava vida em melodias, o violão antigo guardava no canto do quarto uma ferramenta de fuga que onde se fazia uma harmoniosa sinfonia.
Com o silêncio dobrado, vivendo margem ao pecado, recolhia as mãos ao peito enquanto repetia, sofregamente, que no dia seguinte filtraria das partículas do sol um pouco de calor ao coração que mais parecia um iceberg náufrago num mar abissal. E tornava a roer as unhas, enquanto nada acontecia.
Com o silêncio dobrado, vivendo margem ao pecado, recolhia as mãos ao peito enquanto repetia, sofregamente, que no dia seguinte filtraria das partículas do sol um pouco de calor ao coração que mais parecia um iceberg náufrago num mar abissal. E tornava a roer as unhas, enquanto nada acontecia.
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