
Eram duas avelãs aquilo que chamam de olhos, dentro delas se refugiava o impenetrável, o inatingível, o intragável e aquilo, intencionalmente, eu chamava de meu. Escondia dentro aquilo que não conseguia carregar comigo mesmo e minerava de lá o que me era escasso. Amanhecia o dia e lá estavam elas, pediam-me em sigilo que as libertassem da prisão noturna ou simplesmente me ofereciam afeto, sem que eu fizesse o pedido. O fato é que me causavam medo e nas suas estribeiras eu perdia as minhas, difícil era caminhar numa simetria projetando tortuosas arestas, mais difícil foi perceber que minha semi-reta vida continuava. O calendário corria e só oferecia mistérios, as noites se escondiam debaixo do travesseiro, o silêncio bruto desafiava o exagero de um inábil amor que mergulhava o coração na cafeteira, sem bóias.
De repente, abri a janela e sorri: ainda era tempo de morangos.
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