
Mas não se passava de um dia normal: Fantástico na tevê, o resto do almoço sob a mesa da cozinha, a monotonia que já reinava fazia tempo. Tempos aqueles onde dividiam perguntas entre os olhares e as respondiam em duradouros beijos. Beijos os quais independiam de ápices ou algum clímax, eram culminantes por si só. E só, ele decorava aqueles minutos livres, um dia mergulhava a cabeça na almofada da sala com Almodóvar e no outro, simplesmente contava as estrelas. Estrelas que um dia enfeitaram céus infinitos dentro de um universo limitado. E limitando-se na tentativa de não querer entender nada, cortava as possíveis ervas daninhas que insistiam em chafurdar nos seus pulsos. Nesses pulsos de veias que irrigavam-se da fonte do jardim de um outro coração. Coração que por sinal nada se sabe, quiçá esteja tomando banho de sol numa praia do Pacífico. Guardava um olhar pacífico, sem segredo, desarmado e cravejado de incertezas, mas repleto de linhas livres e doces sutilezas. Sútis eram os segundos onde o café alagava-se em ansiedade e invadia a garganta abissal daquele anjo que fugiu e não deixou o endereço certo. Certamente as estrelas cadentes continuavam a cadenciar sua luz na atmosfera daquelas noites, estavam há anos-luz de serem compreendidas, mas o que seria de Capitu sem seus olhos de ressaca e seus sentimentos debruçados sob a tristeza do poeta. Sentimentos de um poeta sereno, que sem rebuliços, esculpia em seu peito um mosaico de nós desfeitos, sabendo bem que não viveria sem eles. Eles eram lindos, sobretudo nas geadas do domingo e no orvalho da segunda.
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