28 de dezembro de 2011

Minha senhoria


Ela poderia não estar ali e mesmo assim estar sentada com as pernas cruzadas, segurando a primeira página do 
Estado do Paraná, lendo a notinha do Campana sobre mais um fiasco do Requião e depois proferindo um incontestável: “Seu vivaldino”. Hoje ela não estava ali. Fez falta ouvir a deixa “que nos ensinou a orar dizendo” para o Pai Nosso no término da sua profunda e agradecida prece. Fez falta não vê-la colocar um pedaço do peru dentro de um guardanapo e depois escondê-lo no bolso do seu casaco cinza. Curiosamente, esse ano teve strogonoff. Fez falta levar sua sobremesa, acariciar seus cabelos prateados e ver seu sorriso magistral esparramando-se pelo seu rosto amorenado e ouvir sua velha afirmação sobre seu hálito: “É o estômago”. Foi necessário não tê-la presente para sentir que ela sempre esteve ali; ela me sorriu esses dias num sonho e eu acordei rindo. Talvez ela esteja caminhando, sentindo o cheiro dos temperos que saem pelas janelas abertas, cantando cantigas singelas, escondendo no bolso alguma guloseima, um confeito, uma coxa de frango e sorrindo, como quando chorava.

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