14 de dezembro de 2011

A experiência taurina


Camuflava o seu vivo dourado com a cor do pecado e caminhava sem gentileza, esperando  a sexta-feira, quando encontraria seu amado num café aristocrático, atrás de um sofá de couro, numa daquelas três mesas. Uma risadinha leve, seus olhos contorcidos de incerteza, já não era ela quem cavava os buracos: eram eles que se abriam diante do seu passo sem firmeza. Os roedores insistiam em mastigar seu tempo, as loucas lhe pediam um momento, seus espectros je ne sais pas, embora eu soubesse que ela aguardava, ansiosa, a sobremesa que nunca chegava. Esmagada, revigorava-se com o brilho pueril das fotografias amaçadas, das noites abrasadas, dos lenços que viraram pano de chão e do vazio que tornara-se tão nítido quanto uma companhia. Não vendo outra forma de manter o recato, pintou de vermelho seus lábios, penteou o cabelo escarlate, pediu pra puxar o zíper do seu vestido bolchevista e perguntou “Estou bonita ?”. Fiz que sim com a cabeça e confessei “Tenho receio”, mas aí já era tarde. Ela preferia cuspir no prato do que lavá-lo com as últimas gotas d’água do seu cantil de cachaceira. Quando abriram a porteira, a multidão gritava alto, receptiva e lisonjeira. Cecília, que não era especialista na arte tauromática, percebeu logo que o bicho não era manso, muito pelo contrário, era o diabo que feito bovino, lhe fitava sem nenhuma sutileza. Ela então abriu os braços, prendeu os cabelos e vendo a fera tentou manter a calma, o que sempre era tido como uma incerteza. O animal correu no ato, atingiu em cheio seu peito cálido, agitando toda a arena. Foi quando acordou e viu que não se passava de um sonho mal educado que lhe afligira a noite inteira.

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