
O olhar mais utópico que já vi, era tão real quanto o mistério que o rodeava. A peculiaridade em seus trejeitos faciais se perdia na profundidade das suas olheiras adolescentes cobertas por uma fina camada de base. Por ventura, rodava uma fita do T. Rex no vídeo cassete. A voz dela de estrangeira erradicada competia com a sonoplastia imoral do ambiente, lá de fora o nublado enaltecia sua palidez que levemente se ruborizava por causa do ketchup ardido colocado no misto quente que acabara de ingerir. Tínhamos somente um guarda-chuva, alguns assuntos em comum e umas oito quadras até a próxima estação-tubo, era fim de tarde e a melancolia de domingo fora substituída pelo tédio construtivo de caminhar pela ciclovia compartilhada. Atravessando uma rua, um palhaço enganchou seus braços raquíticos nos polidos braços dela. Ele era uruguaio, parecia mal humorado – um palhaço em dias chuvosos – que cobrava singelos cinco reais para registrar para a posterioridade um retrato histórico com ele. De braços dados, ela chegou ao shopping com aquele que, apesar de ser o mais triste, foi o palhaço mais educado que já segurou seus braços.
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