24 de maio de 2011

Crepúsculo dos semi-deuses

Só sei que eram lindos aqueles crepúsculos, apesar do monopólio pelo cobertor e da respiração mal canalizada, parecia peça de teatro: ninguém sabia qual seria o próximo ato, mas mesmo que fosse bobo, seria lindo. Fluía como uma coisa natural, daquelas que a gente espera não esperando e que quando a solidão invade feito onda devastadora, ela surge como um banco de areia que ordena: "sossega que o amor não tem ressacas". E vinham aqueles braços, emoldurá-la num pitoresco abraço. O mundo podia acabar lá fora que ali ela estava segura. Foi quando decidiu virar o rosto e palmilhar com os dedos o carpê cinza, pensando no quanto eram diferentes: ela, com asas mais largas, convicta que seus voos eram mais planados e altos e ele, com modestas asas, preferia voos mais baixos e calmos. Mesmo com dimensões diferentes, ambos eram vítimas do mesmo predador, ambos eram vítimas do mesmo amor. Com o olhar fitado nos horizontes daquele quarto, pensou bem baixinho que um dia não precisaria mais voar, só precisaria dos melhores gravetos pro mais belo ninho construir.

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