Sentimentos clichês
Não se preocupe mais com isso, a gente bem sabe que as pessoas assumem os papéis que previamente selecionamos para elas, e quase sempre nossos protagonistas acabam por viver modestas coadjuvações, quem sabe meras figurações. Você tentou eleger muitas vezes mocinhos e vilões para aumentar a dramaticidade da tua mocinha, previa armadilhas pra ver se sua audiência aumentava e sem querer, competia com suas lágrimas um lugar mais evidente nas chamadas de uma novela que nunca foi ao ar. Nessa história a gente acabou se esquecendo dos primeiros capítulos: a gente tinha sonhos, segredos guardados, cabelos estranhos e uma ingenuidade que nos protegia da vida real. Teimosos, quisemos desvendar a realidade, que cruel e fria não deixou de nos colocar debaixo do velho cobertor, onde no passado nos escondíamos dos nossos pesadelos de infância. A vida é hoje, e achamos que o passado também. Longe disso. O passado só quer repousar numa cadeira de balanço debaixo de um jacarandá florido onde, solitário e derrotado, ele admira o presente que cada vez mais rápido se transforma em futuro. Pode parecer dissonante, mas é a harmonia certa do repertório que insistimos em não deixar fluir. Eu já falei que você não precisa se importar com isso, é sua vez de viver, só não se esqueça de escovar os dentes.
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