Eu estava confuso. Meus pensamentos pareciam peixes famintos desviando-se de afiadas navalhas. Naquele mar de agruras estava eu e ele, o meu coração, ambos esperando a mesma resposta, fosse ela prodigiosa ou devastadora. Foi então que ele apareceu, acendendo focos de esperança e medo, trazendo no rosto o mistério de suas próximas expressões. Naquele instante, todos os discursos prontos de racionalidade, moralismo e pés no chão foram substituídos por injeções ácidas de opressão que me faziam ter uma prévia constatação de que a noite seria torturante, mas seu olhar mantinha uma curiosa sinceridade, camuflada em mistério e nos seus lábios ensaiava-se algum possível uso. Inesperadamente, dei-me de sua mão sobre a minha, como quem policia um tesouro, como uma majestosa ave de rapina que protege o ninho, como quem ama e não precisa dizer mais nada. Surpreendeu-me com um involutário (ou seria voluntário ?) gesto de seus lábios. Parei, pensei: "não". Foi quando me olhou com tamanho ímpeto que sua garganta indócil não conteve o impulso de fazê-lo suspirar um dissonante "te amo". Eu estava confuso, mas não suficientemente incapaz de completar com um desarmônico: "eu também".13 de maio de 2011
Dissonância
Eu estava confuso. Meus pensamentos pareciam peixes famintos desviando-se de afiadas navalhas. Naquele mar de agruras estava eu e ele, o meu coração, ambos esperando a mesma resposta, fosse ela prodigiosa ou devastadora. Foi então que ele apareceu, acendendo focos de esperança e medo, trazendo no rosto o mistério de suas próximas expressões. Naquele instante, todos os discursos prontos de racionalidade, moralismo e pés no chão foram substituídos por injeções ácidas de opressão que me faziam ter uma prévia constatação de que a noite seria torturante, mas seu olhar mantinha uma curiosa sinceridade, camuflada em mistério e nos seus lábios ensaiava-se algum possível uso. Inesperadamente, dei-me de sua mão sobre a minha, como quem policia um tesouro, como uma majestosa ave de rapina que protege o ninho, como quem ama e não precisa dizer mais nada. Surpreendeu-me com um involutário (ou seria voluntário ?) gesto de seus lábios. Parei, pensei: "não". Foi quando me olhou com tamanho ímpeto que sua garganta indócil não conteve o impulso de fazê-lo suspirar um dissonante "te amo". Eu estava confuso, mas não suficientemente incapaz de completar com um desarmônico: "eu também".
Por
Willian Aust
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