29 de julho de 2011

Dias de Alana

Na primeira vez que nos vimos, você se escondia por de trás da sua timidez e do casaco, mas mesmo assim deu um sorriso conformado do tipo "estamos no mesmo lugar, né ?". No começo, provou que não era tão gatinha indefesa como eu imaginava, você mais parecia uma onça faminta disposta a atacar qualquer um que pensasse em desvendar seus segredos. Passados os dias, ambos descobrimos que éramos o refúgio do outro, dividíamos os velhos comentários ácidos e monótonos do final de semana, discutíamos músicas (isso quando eu não as cantava) e conseguimos parecer ótimos terapeutas escolares quando, quase no final do intervalo, olhávamos pro teto de isopor, sentados nas desconfortáveis carteiras de cursinho, de onde dizíamos, relutantes: "Mais três aulas!". Também tínhamos uma rotina bastante exaustante, principalmente quando descíamos apressados pra fila da cantina garantir nosso santo café de todo dia. Os copos eram de plástico, a gente sempre usava dois por via das dúvidas, o café era quente assim como seu preço, eu sempre botava dois dedos de água pra esfriar mais rápido, você sempre reclamava que eu não sabia adoçar o café de uma pessoa normal, eu buscava teu café nos teus dias de enxaqueca, gripe, dores musculares e crises existenciais, sem contar que eu comprava balas e pirulitos em horas indevidas. E hoje penso: se naquele tempo fossemos casados, na hora do divórcio, teríamos sérios problemas na divisão de bens e afetos. Toda vez que olho pra nossa foto, eu confesso, sempre me dá vontade de tomar um café quentinho.

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