26 de setembro de 2011

Fragmentos

O tempo lá fora não era dos melhores. A chuva caía fina, pontiaguda e atingia os guarda-chuvas de dez reais e as cabeças dos desprevenidos. Tudo que Cecília queria era uma anestesia de efeito duradouro que a mantivesse intacta dentro de seu casulo, no abrigo de suas incertezas e âmago de sua tristeza. Irreparável como era, tornava aquele dado momento em um dos piores encontros com o espelho que já tivera em toda a vida, salpicava suas dores com o último volume das suas músicas que mais pareciam gemidos. Alternava as horas de óbito moral com encontros com um cantor orelhudo, de charme incógnito e que amava todas as mulheres, o qual ela gostaria que ele a fizesse como tal. O cantor estava na programação do cinema e ficaria poucos dias ali, os suficientes para oferecer a ela lenços enquanto lhe fizesse companhia. Dentro de sua cabeça outro filme estava em cartaz, ela quem o dirigia e não contava com grande elenco; o necessário para chamar de arte aquilo que todo dia aparentava ser uma obra de ficção. Com o tempo esqueceu-se do tempo, das promessas de não ouvir tal música, de que era auto-suficiente sobre seus sentimentos e de que a primavera reinava, absoluta, na praça Osório. Também começara a policiar suas idas à janela, tinha medo de terminar como a prostituta apaixonada ou de abrir as asas e partir, como desejava havia um bom tempo.

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