Ela era capaz de amar, só não sabia disso. Não lhe faltava nada; trazia nos olhos miúdos um poema, em seus lábios ressecados a prosa de belos dias, seu jeito de andar lembrava o de bailarinas russas e no seu coração havia um poço fundo, cheio de moedas e desejos. Tão incógnita e irresoluta, esboçava no ensejo dos dias seu sorriso exigente que encantava os rapazes, deixando desencantadas as moças e esculpia-o nas retinas instigadas, causando risos acanhados, calafrios e melancolia. Também era prendada: sabia cozinhar, fazer arroz doce, pavê de bolacha maisena, biscoito da sorte e um café sabiamente adoçado, quentinho na garrafa térmica. Mesmo assim restava-lhe o abandono e a frieza das noites frias; aguardava o momento derradeiro para ceifar todo seu tormento, mas até então só conhecia três orações, desconhecia mantras, muito menos sua face era de madeira. Até hoje permanece em seu leito, pigarreando o infortúnio de não ser descoberta e suja a coberta com lágrimas amargas a alimentar os lençóis freáticos da hidrografia da sua solidão.
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