29 de outubro de 2011

Cecília e o zepelim prateado

Naquele prédio haviam sete andares, dois elevadores com capacidade para dezesseis pessoas ou oitocentos quilos, cada andar era vigiado por um policial com artilharia pesada suspensa no cinto que segurava as calças que, trivialmente, salientavam o preparamento físico rigoroso destes que visavam o cumprimento da ordem e disciplina dos que por ali cruzassem. Todos os aprendizes daquela Ordem trajavam uniformes de cor esverdeada; os mais evoluídos vestiam o preto, que representava o luto antecipado da próxima etapa de suas vidas: a realidade. Ela subia as escadas com seu passo pra dentro, suas madeixas louras, seu queixo engraçado, seu olhar também era desconfiado, mas que não afetava nenhum milímetro dos músculos faciais, seu uniforme preto destacava que era diferente, só não a tornava menos interessante. Não que esse seja o começo de uma história de amor, muito menos que eles tiveram final feliz algum dia. Pouco se via. Muito se questionava. Mal sabia ele que naquele três de novembro em que ela subia as escadas até o sétimo andar, que abrigava um grande auditório da Ordem e um modesto refeitório onde eram servidas iguarias do cardápio escolar, suas tentativas de ser poeta teriam algum significado. Mal sabia ele que esse significado seria ela, mal sabia ela que estava sendo observada por um indivíduo que achara nela algum significado para sua fuga adolescente. Foi quando por trás de uma porta dobrável com um triângulo de vidro ao meio, ela se virou para ele; com um olhar tímido e poético, os lábios estavam secos, a sombra e o rímel simétricos. Ele, de certa forma, teria se aproximado dela propositalmente e ela nunca haveria de saber disso. Seu cabelo estava bagunçado, seu uniforme era evidentemente verde, o que era visto como imoral àquelas horas no sétimo andar. "Oi", ela disse. Os efeitos do Picasa lhe faziam muito bem, tanto quanto o perfume de baunilha que usava. "Oi !!!!????", respondeu ele. Não era proibida a comunicação entre os indivíduos de uniformes de cores distintas, mas era atípico o contato entre eles. Nos dias seguintes, em todos os dias em que ela passasse na frente da sala dele, ele a veria fazendo um aceno pela vidraça da porta de madeira, sempre com um sorriso intrigante, com a impressão de que pra eternidade levaria o que naquele instante não passava de corriqueiro.

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