Foi então que ela segurou minha mão com tamanha força, como se eu fosse o único fio capaz de segurá-la naquele instante. Podia ouvir sua respiração, seus segredos, suas noites, suas loucuras, o zíper da sua bolsa.Aberto o zíper, suas mãos buscavam o conforto de mais um cigarro vermelho. A maquiagem não conseguia esconder suas enormes noites sem dormir, o silêncio era sua única fonte de alívio e quando a noite caía, ela se perdia, se perdia, se perdia e só se achava quando, de manhã, se deparava com seu semblante fétido no espelho do banheiro. E eu até queria puxar um assunto, sei lá, Pré-sal, Massacre no Rio, Dilma na China, algo assim.
O que restava de noite foi como ela tanto queria: em absoluto silêncio. Mas arrisquei:
— Qual seu maior sonho? — perguntei.
— Sei lá, cara. A pior parte de sonhar é ter que abrir os olhos no dia seguinte. Mas sim, já tive muitos sonhos, mas aos poucos fui percebendo que consigo viver muito bem sem eles. É até melhor, apesar da frieza.
— Você é do mesmo tamanho dos teus sonhos, só que um pouco mais acabada.
E a abracei, como se eu fosse a única pessoa que pudesse fazer aquilo. E era.
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