6 de abril de 2011

Sonhos movediços

Seus olhos cada vez mais fundos, as mãos cada vez mais trêmulas e os pensamentos cada vez menos lúcidos. Não sabia optar pela ruptura de um sonho esfarelado ou pelo novo que envelheceria tão rápido como uma fruta podre. Mesmo chafurdada de tanta insegurança, ousou resgatar seus sapatinhos vermelhos, o perfume de baunilha e a vontade de ser feliz, que apesar de pequena, era suficiente pros dias a seguir. Não estava muito equilibrada nos saltos finos dos sapatinhos, mas estava intacta e altiva sua vontade de pisar firme na areia movediça mesmo com todas as suas sarjetas e poços infindos. O vento soprava os cabelos, sopravam também sonhos que mais pareciam borboletas desavisadas num céu de pesadelos. Canais de lágrimas percorriam os afluentes do rosto doce de menina em corpo de mulher com fraqueza de uma velha, os músculos enrijeciam, o suspiro torrente asfixiava como veneno em seu peito semi-árido. Por mais que as ruas desertas assustassem, por mais que as luzes dos postes fossem as únicas coisas claras naquele momento, ela sorria. Tão misterioso quanto despercebido surge um breve sorriso, sem travas, alavancas ou falsidade. A noite deserta, o coração tampouco e alguma leve incerteza de que seus sapatinhos vermelhos não estavam nos seus pés a toa. E seguia firme em seus passos fundos na areia movediça de um deserto sem oásis.

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