15 de julho de 2010

Tenho saudade de tudo, Dora


Depois de percorrer o interior do Brasil em busca dos pais de Josué (Vinicius de Oliveira), Dora (Fernanda Montenegro) decide voltar ao Rio de Janeiro, mas antes disso, deixou uma das minhas cenas favoritas do cinema nacional. Uma carta e um retrato são deixados sobre um modesto altar com a imagem de Nossa Senhora e uma vela acesa. O retrato é simples, foi tirado com máquina analógica, para que Josué não perdesse a imagem de Dora nas suas lembranças de menino. Na carta, Dora revela-se doce e sentimental. E triste.


Josué,

Faz muito tempo que eu não mando uma carta pra alguém,
agora eu tô mandando esta carta pra você. Você tem razão,
seu pai ainda vai aparecer e, com certeza, ele é tudo aquilo
que você diz que ele é. Eu lembro do meu pai me levando
na locomotiva que ele dirigia. Ele deixou eu, uma menininha,
dar o apito do trem a viagem inteira. Quando você estiver
cruzando as estradas, no seu caminhão enorme, eu espero
que você lembre que fui eu a primeira pessoa a te fazer botar
a mão num volante. Também vai ser melhor pra você ficar
aí com seus irmãos. Você merece muito, muito mais do que
eu tenho pra te dar. No dia que você quiser lembrar de mim,
dá uma olhada no retratinho que a gente tirou junto. Eu digo
isso porque tenho medo, que um dia, você também me esqueça.
Tenho saudade do meu pai.
Tenho saudade de tudo.

Dora.

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