Sei bem pouco sobre eles. Só sei que não deram certo, mas
tinham uma história bonita, até. Quanto a ela, sei muito bem.
Cabelos louros, sorriso de cereja, cheiro de baunilha, voz fina.
Ele tinha uma bela barba mal feita, pra mim era mal feita.
Tantos filmes vistos juntos, tantos gostos em comum, tantas
semelhanças e tanta indiferença. Eram "os sobreviventes" de
uma história mal contada. Ele era tímido, misterioso, único.
Ela sabia muito bem conquistar um homem ou uma mulher,
tinha uma bolsa amarela e desenhava corações no verso de
tickets de cinema. Eles perderam os últimos quinze minutos
do filme do Batman, mas ganharam uns trinta dias de vida.
Estava com ela nos trinta segundos em que os dois se olharam
pela última vez, ele tinha filmes do Hitchcock nas mãos pra
entregar, e ela tinha as bochechas rosadas pra lhe dar de
bandeja. Nenhum filme que juntos assistiram foi capaz de
contar a história que ambos viveram, esse não foi um final
feliz. Esse não foi o final infeliz previsto previamente na
descrição do filme. Não posso me esquecer daquele dia de
chuva em que andamos pouco mais de um quilometro só
pra ela vê-lo. Ele usava uma blusa de lã vermelha (que ela
bem adivinhara). Ela estava com a maquiagem borrada, que
denunciava seu ato de teimosia e heroísmo. Era tarde demais.
Hoje eles são bons amigos, só lhes restam história pra contar.
Pois as fitas de cinema emboloraram, e os tickets de cinema
perderam a cor.
Gostei muito desse texto, é uma daquelas leituras que a gente gosta sem saber muito bem o porquê. Por isso não ousaria explicar.
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