31 de julho de 2010

Coprofága

Quando teve consciência do erro que estava cometendo, seus lábios
já estavam ressecados. Como assim tanto tempo, dinheiro, família,
cenas de entrega e paixão atípicas, notas fiscais de restaurante de
comida japonesa podiam estar acabados ? Sua submissão ao tal ser
se tornou maior que seu amor-próprio. A necessidade de nutrir-se
da satisfação do ego da companheira fazia-lhe incapaz de interpretar
os seus próprios sentimentos. Um relacionamento sanguessuga, onde
o dominador sugava todas as forças de quem se submetia a tal. Poxa,
nem bodas de papel, nem festa de aniversário de 1 ano, nem beijo de
bom dia. De longe, acenou o último adeus. Estava tão fraca, que mal
conseguia reconhecer a si mesma. Chafurdava cada vez mais nas
memórias recentes, mergulhava sempre mais fundo no abismo aberto
no seu peito indócil. Cavadas ainda mais suas olheiras, só desejava a
morte, só queria estar bem longe. Mas eu estava ali, na verdade...
Eu sempre estive.

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