19 de julho de 2010

Literatura: Raymond Carver

No último suplemento "Ilustríssima" da Folha de S. Paulo, três
poemas minimalistas do escritor Raymond Carver me chamaram
a atenção. O escritor é norte-americano e fazia parte do chamado
"Realismo sujo", trabalhou em grandes jornais como o The New
Yorker
e o Esquire. Ele fazia contos que, posteriormente, foram
reunidos em um livro, além de produzir belas poesias. Faleceu
jovem, aos 50 anos, no final da década de 80, vítima de câncer.

"Medo,

Medo de ver a política estacionar à minha porta.
Medo de dormir à noite.
Medo de não dormir.
Medo de que o passado desperte.
Medo de que o presente alce voo.
Medo do telefone que toca no silêncio da noite.
Medo de tempestades elétricas.
Medo da faxineira que tem pinta no queixo!
Medo de cães que supostamente não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de ter demais, mesmo que ninguém acredite nisso.
Medo de perfis psicológicos.
Medo de me atrasar e ser o primeiro a chegar.
Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.
Medo que eles morram antes de mim, e que eu me sinta culpado.
Medo de ter que morar com minha mãe em sua velhice, e a minha.
Medo da confusão.
Medo que esse dia termine com uma nota infeliz.
Medo de acordar e ver que você partiu.
Medo de não amar, e não amar o bastante.
Medo de que o amo se torne letal para aqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demais.
Medo da morte.

Já disse isso".

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