— Se lembra de quando a gente pensou em fugir ?
— Lembro sim, eu não sabia o que eu tinha na cabeça.
— É, eram bons aqueles tempos. Seu cabelo ainda cheirava
xampu importado, seu perfume era de baunilha, seus dedos
tinham anéis bonitos, sua voz era doce, você ainda era minha.
— Ah, sim. Como posso me esquecer daquele cheiro de garota
que tomava banho de rosas e esperava, boba, um príncipe.
— Era Chico pra cá, Maysa pra lá. Era sorriso de cereja um dia,
cara de ilusão no outro. Sim, éramos feitos de cereja e ilusões.
Mas a gente gostava de tomar café, roubar adoçantes, reparar
no andar alheio, deitar no ginásio da praça e ficar se olhando.
— "Você é o meu melhor... amigo", eu te disse. Na hora, era o
que mais estava oportuno dizer. Nunca nenhum homem havia
pedido pra colocar a cabeça nas minhas pernas, oras bolas.
— E como num musical dos anos 70, a gente fingia dançar. Era
estranho, seu lenço te trazia pra perto de mim e te levava pra
longe. Os mesmos programas, os mesmos filmes, as mesmas
manhãs de domingo, e os mesmos pedidos no Burger King.
— Acho que está fazendo frio demais, quer tomar um chá ?
— Chás ? Eu lembro dos deliciosos chás que a gente tomava.
Parecia tudo premeditado: eu colocava três sachês de açúcar
mascavo e você tomava insosso mesmo. Você carregava um
relógio-de-bolso prateado. Eu achava tão inoportuno usar algo
tão fino com calça jeans. E o "Manifesto Comunista", você ainda
guarda ele ? Me arrependo tanto de não ter feito dedicatória.
— O chá está pronto. Quando terminar bote a caneca na pia.
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