11 de dezembro de 2010

A síncope da mulher de vestido negro

Carregava nas costas, todo peso do mundo. Suas mãos já estavam fartas de envelhecer de tanto esperar por serem tomadas. Era discreta, quarenta anos, metade deles mal vividos. Um cigarro atrás do outro, e a espera de sempre: a de sempre esperar. Tinha dias de luxo, quando decidia que ia parar de chorar. Morava num apê modesto no centro da cidade: janelas grandes, vazamentos, baratas, cheiro de mofo, vizinha evangélica, porteiro cearense com sotaque paraibano, correspondências acumuladas em cima da mesa, elevador pré-histórico, relógio digital no terraço do prédio da frente. Amou, talvez não como quisesse, mas amou, amou de tal maneira que decidiu nunca mais amar, amar é pra quem gosta de sofrer, gostar de sofrer é pra quem não quer amar por achar que vai gostar de sofrer. Durante o dia assumia o seu papel de funcionária pública exemplar, sete e cinquenta e nove na mesa tomada de processos e um porta-retrato sem foto. Onze e cinquenta e nove, com as unhas mal-pintadas, suas mãos carimbavam o último processo antes de se afogar no amargo café da repartição. Três da tarde, repetia a cena com maestria: levantava-se de sua cadeira giratória de tom amarronzado e partia na direção da garrafa térmica florida pra tomar mais um amargo café da repartição. Naquela tarde, especificamente, por obra do acaso ou do destino ou de Deus ou do demônio, um rapaz forte, crioulo, dentes negros de tão brancos, perfume de desodorante aerosol, foi tomar café nas mesmas três da tarde do amargo café da repartição dela. Você não é de muito papo, disse o rapaz. Relutante por palavras, impressionada com o tamanho dos seus braços, respondeu que não, que não queria parecer antipática, antisocial, anticultural, antiga, só que lugar de trabalho é lugar de trabalho. Quer sair comigo essa noite, eu sei que estou sendo um tanto quanto íntimo, mas é que cheguei a pouco tempo na cidade e não conheço muito bem os lugares, disse a ela enquanto seus braços eram observados com tamanho ímpeto por aqueles olhos. E ela: Olha cara, eu não tenho mais idade pra sair com um moleque da tua idade, quantos anos você tem ? Uns vinte, talvez vinte e cinco, vinte e três, que seja. O rapaz fingiu esconder a decepção, mas insistiu e disse que só queria ser amigo, que só queria conhecer gente bacana, novas amizades, você sabe. Tá bom, cara, às oito naquele barzinho na esquina do Mercado Municipal, disse ela, escondendo o enorme desejo de possuir aqueles lábios rosados que de tão delicados, não pareciam esconder por trás deles uma voz tão máscula e penetrante. Calçou os sapatos vermelhos que nem lembrava quando haviam sido comprados, vestiu o mais belo de todos os vestidos: o vestido negro. Ela já não conseguia esconder a súbita alegria, nem tinha percebido que tinha fumado apenas metade da carteira de cigarros, nem se tocou que a privada estava entupida, tampouco se importou com seus dezoito anos de profissão, sete anos de divórcio, quarenta anos de merda, cinco dias sem uma trepa, quarenta anos de certidão de nascimento. Eram oito e dez, e nada dele. Uma dose de vodca, por favor. Oito e meia, um negro alto passou, braços miúdos, não era ele. Tem alguma coisa mais ardente aí, perguntou. Nove e quinze: Porra, já devem ser umas três da manhã e esse maldito não chegou, vou esperar só mais quinze minutinhos, daí vou me mandar. Já passavam da uma, e ela, estirada sob a mesa de plástico, foi tocada pelo garçom que disse que o bar estava fechando, se ela queria mais alguma coisa, se ela queria uma última dose de caipirinha, ela fez que não com a cabeça e perguntou quanto foi, e ele disse que foram cento e vinte e quatro reais. Mas cara, eu não tenho toda essa grana, você deve estar enganado, eu não gastei tudo isso! Mas façamos o seguinte, eu te deixo aqui minha bolsa com todos os meus documentos, meu celular, e alguns preservativos, e só venho resgatá-la quando tiver todo o dinheiro, disse ao garçom que lamentava o estado da mulher. A porta de casa estava aberta, devia ter esquecido de trancar devido aquela empolgação de umas seis horas atrás. Naufragou no sofá, e como se estivesse à deriva, só pediu que dali não saísse viva, que tudo é uma grande merda, que os amores não tem cor, que os amores só servem pra aumentar o lucro dos donos de bar, que os amores que sobrevivem aos maremotos já nasceram com nadadeiras, que os amores só levam a velha espera de sempre: a de sempre esperar. Nunca mais ouviram falar da mulher do vestido negro, da funcionária pública exemplar, da mulher de quase um século de histórias mal contadas. Alguns arriscam a dizer que ela esperou todas as noites pelo crioulo na mesa do bar da esquina do Mercado Municipal, outros pensam que ela se matou, mas o que ninguém sabe é que quando ela usa seu vestido negro, seu único desejo é amar.

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