
Ponto final.
Começa assim mais uma história sem começo e meio, apenas com o fim. Parecia que agosto tinha tomado o calendário por completo, um completo desgosto, agosto por completo. Não existe um ponto de começo, falando a verdade, não adianta procurar pontos finais numa história que já começa com um. Mas existem parágrafos, borrões mal apagados, inúmeros rabiscos nas bordas, folhas rasgadas e silêncio, muito silêncio. O silêncio é uma exigência, a história possui monstros que hibernam, e se acordados, se mostram ferozes e tomados de expressiva fúria. Não existem princesas, príncipes, duendes, fadas ou semi-deuses, eles são desnecessários e todo mundo já sabe seus respectivos fins: a princesa e o príncipe são felizes para sempre, os duendes vão parar no jardim, petrificados, as fadas se apaixonam por soldadinhos-de-chumbo ou pegam outras fadinhas e os semi-deuses são beatificados. Além dos monstros, existem corpos frágeis que trafegam desnorteados por uma extensa alameda de árvores e plantas que permanecem em constante outono, não há veículos, não há sinalização. Corpos frágeis caminham sem saber onde é sul, onde é norte, onde é vida, onde é morte, apenas seguem, dispersos, um caminho que leva para lugar algum. No subsolo, ratos e baratas se divertem, fazem festas de arromba, permanecem fora de si durante vinte e cinco horas por dia e trocam seus asquerosos corpos por um prato de comida. Acima das nuvens cinzentas, anjos, pássaros e estrelas despistam qualquer rastro de indiferença, dor, angústia e sofrimento. Mas não fazem o trabalho direito, no fundo eles sabem que seus papéis são só de representação, de exemplo ou superioridade. Certo dia, certa pessoa atirou certa bomba que causou certa destruição, o que não foi nada certo. Depois daquele dia, monstros, corpos frágeis, ratos, baratas, anjos, pássaros e estrelas começaram a dividir o mesmo plano, o mesmo chão. Lutas por espaço, comida, festas de arromba, alamedas outonais e constelações se tornaram frequentes, e ninguém poderia os ajudar, nem eles mesmos. As bibliotecas já estavam soterradas, os rios já não eram sagrados, as muralhas já haviam se tornado ruínas, os rituais já não respeitavam as tradições, as melodias já ritmavam-se com sôfregos choros de lamentação. O que restava de alma havia terminado em metáfora, uma utopia pra se viver, só um recurso religioso pra intimamente confundir. O silêncio se cadenciava e os gritos tomavam força, as pegadas sujas e gigantes se intensificavam, tudo o que era água se tornara sangue, tudo que era sangue se tornara sede. Um som. Um som vinha de longa distância, parecia com o tocar de cordas de um instrumento que sentenciava algum estado de mudança. Todos voltados para o som que parecia se aproximar rompantemente, se quedaram imóveis. Aos poucos tudo o que era fortaleza se fortaleceu, tudo o que era desconstruído se reconstruiu, tudo o que era gravidade se inerciou. Talvez seja esse o ponto final, de uma história que só tem fim. Tudo o que era sonho se manteve sonho, tudo o que era desgosto se manteve em agosto. A alameda continuou extensa, mas experimentava uma primavera incomum, que a cada ano a deixava um pouco mais bonita.
Ponto final.
Nossa! Adorei esse texto, e eu viajei muito com ele... Ele permite isso e o resultado é interessante. Bem válido!
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